Essa é a história de um jardineiro qualquer que conheci um dia. Inclusive, nesse fatídico dia, ele estava um tanto ébrio. Bebia de sua própria tristeza, como o próprio me disse. Questionado sobre o porquê de tamanha infelicidade, me respondeu que precisava fazer uma flor específica florescer e até hoje nada. Nos encontramos na cidade, numa loja de fertilizantes. Trocamos experiências e ficamos conversando na fila do ônibus.
O jardineiro, decidiu ir à cidade comprar fertilizantes, queria porque queria ver sua semente florescendo. Ele sabe que sua flor é maravilhosa, mas só sabe porque sente, não porque realmente tem alguma prova. Uma mera possibilidade da vida que julgou valer a pena acreditar.
A embriaguez lhe fez perceber que a vida não é muito mais que uma questão de ser. Seu pensamento solitário e desdenhoso fora capaz de derrubar a cerca de seu quintal (já não havia mais muros altos porque achava desnecessário se proteger das coisas boas que podem cair em seu jardim) que abrigava em si uma ou outra flor. Cada uma diferente da outra. Flores que já ameaçaram morrer, mas ele deu um jeito de pelo menos salvá-las ao ponto de poder admirá-las sem remorso. Semeou outra maravilhosa flor, mas essa tardava em florir, por mais que cuidasse da melhor forma e isso lhe entristeceu. O jardineiro, não queria todas as flores do mundo e por isso cuidava bem das que possuía.
Com um saco cheio de fertilizante em mãos, subiu calmamente os degraus do ônibus. Ele não tem pressa. Já teve muito, mas hoje parece que não. Os meses não lhe parecem tão longos como deveriam. Sentado à janela e com o saco no colo, observa a paisagem mudando cada vez mais rapidamente, mas proporcionalmente à velocidade que sua condução se movimenta. Me diz que sempre se pega pensando como seria sua flor madura, cheia de pétalas. Imagina qual seria o cheiro dela, se teria espinhos ou não, se gostaria de mais sombra ou mais sol. Isso lhe causava os sorrisos mais tristes que um jardineiro dedicado poderia ter. Ele já não sabia mais o que fazer após tantas tentativas frustradas.
O ônibus entrava agora numa pista de trânsito rápido. E acelerou. Acelerando também os pensamentos dele. Se deu conta que estava cansado de tentar, mas algo ainda o motivava. Era um sentimento tão abstrato que ele demorou a me responder quando questionado como se sentia naquele exato momento. Aliás, o momento em questão é basicamente composto dos seguintes elementos: ônibus rápido, freada brusca, saco caindo ao chão e rasgando de forma a espalhar fertilizantes aos quatro ventos. Não que isso fosse um impedimento, mas pareceu o efeito gatilho para o jardineiro.
Ele ficou sentado olhando para os próprios pés enquanto refletia sobre lá sei o quê. Depois de alguns segundos de agonia, decidi ajudá-lo a recolher o fertilizante do chão. Mas fui vetado. “Meu coração está ficando preguiçoso”, disse-me ainda de olhar fixado nos próprios pés. “Está preguiçoso porque não consegue admitir que não conseguiu fazer daquela semente uma bela flor. Não quer se libertar desse passado que ainda se finge de presente. Não quer procurar outras semente pra cuidar porque já se apegou a essa.” Pergunto se isso tem a ver com profissionalismo (imaginei que ele não gostasse de trabalhos incompletos). Me respondeu dizendo que simplesmente gosta de fazer as coisas florescerem. Indago se vai deixar o fertilizante no chão ou levará pra casa (pois chegamos no ponto final). Mas me disse apenas que vai continuar sentado no ônibus fazendo mais algumas viagens. Me despeço e desço do ônibus. Está chovendo forte e preciso ir pra casa.
Uma tempestade de raios paira sobre meu bairro. Ou pelo menos tenho essa sensação ao observar o dia passar lentamente pela janela. Tenho ficado ansioso demais pela notícia que pode mudar o rumo da minha vida. Num curto prazo certamente será um choque. Num médio ou longo período eu já não sei como isso me afetará.
Meu telefone vibra sobre minha escrivaninha. Penso em correr pra olhar, mas meu corpo se move em largos, porém lentos, passos. É como se eu já soubesse, inconscientemente, que preciso aproveitar esse momento. Antes mesmo de desbloquear, observo a notificação e consigo ler um “Precisamos conversar. É sobre seu caso, me encontra hoje às…”. Meus ombros pesaram. Pesaram tanto que meus olhos foram abaixo junto. Sento-me ao chão e mantenho minhas pernas em “indiozinho”. Acabou. Sei que não virá um notícia boa quando eu chegar ao bar hoje à noite, afinal, quem precisa contar uma notícia boa não costuma fazer rodeios. Mas temos esse hábito de contar notícia ruim frente a frente. Talvez sintamos essas necessidade de captar as reações mais primitivas e sinceras. Num tempo de tamanhas efemeridades, não me pasmo em pensar que em algum lugar de nossas mentes só buscamos um sentimento forte o suficiente, mesmo que por poucos segundos, pra suprir os levianos que presenciamos diariamente. Pego meu guarda chuva e saio.
Chegando ao bar meu advogado me recepciona com um abraço. Um abraço caloroso demais, eu diria. Eu apenas entrego o frio que sinto nessa armadilha paternal. Sentamos e quebramos o silêncio ao pedirmos simultaneamente uma cerveja. Assim que recebemos nossos copos e nossa bebida, nos servimos e brindamos. Ao colocar meu copo à boca, Alberto me diz que fui condenado pelo juri. Termino meu gole e me levanto. Permaneço ali sentado encarando-o. Eu não sei quanto tempo fiquei atônito ali, mas me lembro bem do barulho da chuva caindo sobre o toldo do lado de fora de bar. O estrondo fortíssimos de um trovão me trouxe de volta. Deixo uma nota em cima da mesa e saio. Sem blusa, sem guarda chuva. Apenas eu e minhas consciência vagando pelas ruas com destino sabe-se lá qual.
Conforme vou processando a situação, mais irritado fico. Paro em um ponto de ônibus e lá fico passando minha língua em meus dentes incisivos superiores. Num movimento de vai e vem da esquerda para direita e da direita pra esquerda que não cessa. É a canalização de ódio mais efetiva que consigo imaginar. Sou totalmente inocente nesse caso. E não é um papo clichê de condenado. Fui traído pela minha testemunha mais importante. Calou-se diante das perguntas cruciais. Simplesmente abdicou-se de proteger quem lhe protegera. Absteve-se pelas convicções de manter-se atrelada ao passado que teimara em impregnar-se em seu presente. Meu único crime foi ter baixado a guarda quando talvez não fosse tempo. Libertaram Barrabás.
Raios e trovões me despertam novamente. Lembro-me de que preciso andar, pois ainda tenho necessidade de seguir adiante. Não é uma condenação perpétua. Minha cabeça erguida guia meus passos cada vez mais lentos. Pareço imponente e realmente me sinto assim. Meu orgulho brada. É uma dança descompassada que travo dentro de mim. A síntese entre tristeza e dever cumprido. Posso retornar da guerra apenas com uma ou outra ferida que já tenho experiência em como tratar.
Arrisco uma trotada ou uma corrida na chuva, porém, acabo cansado em poucos metros. Cansado de muita coisa. Mas se cansei é porque me esforcei. Espreguiço-me e levanto os braços ao céu. Era minha redenção comigo mesmo. E o divino me entendeu. Um risco quente, feito sob medida me acerta o peito. Eu estava flertando com o destino, foi uma flechada que doeu muito. O barulho em seguida era ensurdecedor. O choque que recebi me trouxe a mesma realidade que ao mesmo tempo me fez questão de retirar. A tempestade se formou rapidamente, a chuva demorou a cair, mas o raio caiu onde precisou cair. Meu peito ardeu, mas meu rosto sorriu, enfim. Adeus.
Um dia desses peguei um cheiro seu em mim. Mas claramente era mais um dia de m e n t e v a z i a - e é realmente como dizem.
Um dia desses me peguei pensando sobre a chuva. Seria ela a saudade da nuvem que, i n s i s t e n t e m e n t e , ainda deseja se deitar junto ao mar?
Um dia desses me peguei pensando em arrepios. O sentimento p o r o a p o r o que me causava ainda existe, só que agora em cada gole ardido de cachaça que bebo.
Mas tem dia que não me pego pensando em nada Mas que preguiça boa é essa Bom dia. Amanheceu um lindo dia.